SESSÃO 2
7 Out. 22h00

La Région Centrale de Michael Snow, 1971, 16mm, 180’

Em La Région Centrale, Snow construiu uma câmara e um dispositivo especiais… um mecanismo capaz de se mover em todas as direcções: horizontalmente, verticalmente, lateralmente, ou em espiral. O filme é um movimento contínuo ao longo do espaço, interrompido ocasionalmente por um X que serve de ponto de referência e nos permite retomar a estabilidade da realidade. Snow escolheu filmar numa região deserta, sem qualquer rasto de vida humana… Nas primeiras imagens, a câmara destaca-se lentamente do chão num movimento circular. Progressivamente, o espaço fragmenta-se, a visão inverte-se em todos os sentidos, a luz abundante dissolve as aparências. Tornamo-nos cúmplices insensíveis de uma espécie de movimento cósmico… Catapulta-nos para o coração do mundo antes da linguagem, antes dos significados compostos arbitrariamente, antes mesmo do sujeito. Força-nos a repensar não só o cinema, mas o nosso universo. (Louis Marcourelles, Le Monde)

“A câmara é um instrumento que contém em si mesmo possibilidades expressivas. Quero fazer um enorme filme de paisagem que iguale no cinema a grande pintura paisagística de Cézanne, Poussin, Corot, Monet, Matisse e do Grupo dos Sete do Canadá… O local e a acção serão filmados em alturas diferentes do dia e em condições atmosféricas diversas, mas sempre na Primavera ou no Verão.
O filme constituirá uma espécie de registo total de uma porção de natureza inóspita. O efeito dos movimentos mecânicos [da câmara] serão idênticos ao que imagino possa parecer uma primeira filmagem rigorosa da superfície lunar. Mas vai assemelhar-se sobretudo a uma filmagem do último local intocado da Terra, um filme para se levar para o espaço como uma lembrança de como era a natureza. Quero transmitir uma sensação de solidão absoluta, uma espécie de “Adeus à Terra”, que é o que acredito estarmos a viver hoje. Em completa oposição ao que é transmitido pela maior parte dos filmes, este filme não vai apresentar apenas um drama humano, mas igualmente mecânico e natural. Vai preservar aquilo que será uma extrema raridade: um espaço selvagem. Talvez a solidão se torne também numa raridade.” (Michael Snow)

“Em diversas filosofias e religiões, encontramos muitas vezes a ideia e por vezes o dogma de que a transcendência é a fusão dos contrários. Em <---> é possível que esta fusão seja obtida através da velocidade. Já disse e volto a repetir que New York Eye and Ear Control corresponde à filosofia, Wavelength à metafísica e <---> à física. Através desta metáfora refiro-me à transformação da matéria em energia: E=mc2. Na continuação deste processo, La Région Centrale é simultaneamente micro e macro, cósmica e planetária, através da acção e da reacção. Está para além desses fenómenos. Este filme deve igualmente apresentar o diálogo mais claro possível entre o que identificamos habitualmente como “o céu” e o efeito físico e real da imagem-luz projectada em movimento no olho e na imaginação. La Région (central) não é apenas um documentário que regista um lugar específico em diferentes momentos do dia, mas é também e sobretudo uma fonte de sensações, uma ordenação, uma composição dos movimentos do olho e do ouvido interno. Assim, o filme começa por respeitar a gravidade, mas quanto mais avança, mais corresponde ao que se veria noutro planeta. O alto baixa o alto, o baixo eleva o baixo, o alto eleva o alto (…). Não há mais ninguém a não ser o espectador (talvez a máquina?) e esse extraordinário lugar selvagem. O enquadramento como uma pálpebra. Pode parecer triste constatar que uma forma para poder existir deve ter fronteiras, limites, um lugar, uma mise-en-scène. O conteúdo do rectângulo pode ser precisamente isso. Em La Région Centrale o enquadramento sublinha a continuidade admirável mas trágica do cosmos, que progride sem nós.” (Michael Snow)